Na foto, o ministro Nelson Jobim veste farda de general quatro estrelas, o posto máximo do Exército Brasileiro, durante uma recente viagem à Amazônia. Ontem, a reação dos seus "colegas" generais, ou subordinados, na condição de ministro da Defesa, foi forte e chegou a incomodar o governo Lula. Ele vai precisar de usar todo o seu jogo de cintura para acalmar os ânimos dos militares, que estão preocupados em que seus companheiros de farda torturadores e assassinos não sejam transformados em réus. Acho que essa o Jobim tira de letra. E o pessoal da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, embora tenha feito um excelente trabalho, que resultou no livro (capa abaixo), também precisa ser acalmado. Não está na hora de mexer neste vespeiro chamado revisão da Lei de Anistia. Acho que nem agora nem nunca. Não faz mais sentido. Isso, sim, seria revanchismo -- o que ninguém sério quer e os militares não aceitam.

Fiz o post em que elogio o Governo Lula pela sua postura correta ao lançar o livro
"Direito à Memória e à Verdade" às 15:36 de ontem, como podem conferir no rodapé. No texto, ao comentar a fala corajosa do ministro Nelson Jobim -- de que
"Não haverá indivíduo que possa reagir [dentro das Forças Armadas, a esse lançamento do livro]. Se houver, haverá uma resposta" --, afirmei (está fácil conferir, é só rolar o mouse para o post seguinte, no quinto parágrafo):
"Não me lembro de nenhuma outra oportunidade em que um político brasileiro tenha mandado um recado tão duro aos militares de todas as patentes e de todas as armas -- principalmente aos que sentem saudade dos tempos da ditadura. E eles ainda são muitos, acreditem, tanto militares como civis. Pode haver reação a esse recado. Eu conheço esse ambiente fardado. Vamos aguardar".
Não se passaram mais do que três ou quatro horas em relação à minha postagem e lá veio a primeira reação que suspeitava pudesse acontecer. Desde a uma da tarde o comandante do Exército, General Enzo Martins Peri, estava reunido extraordinariamente com o alto comando (14 generais de quatro estrelas) para reagir ao lançamento do livro e, principalmente, às falas do ministro Nelson Jobim e do presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Marco Antônio Rodrigues Barbosa. Ambas teriam desagradado à tropa e provocado reações nos quartéis -- as da mídia já havia registrado aqui.
No final da tarde, quase-noite, lá vem uma nota oficial do comandante Enzo Peri, resultado da reunião extraordinária. Vou reproduzí-la na íntegra (em azul), porque acho relevante e, depois, volto a comentar:
"O Alto Comando do Exército reuniu-se em Brasília no dia 31 de agosto para tratar de assuntos de interesse da Força e de fatos divulgados recentemente pela mídia. Com concordância unânime, decidiu reafirmar que o Exército brasileiro, voltado para suas missões constitucionais, conquistou os mais elevados índices de confiança e credibilidade junto ao povo brasileiro. Nossos comandantes, em todos os níveis, ensinam diuturnamente em nossos quartéis os valores da disciplina, da hierarquia e da lealdade, os quais têm sido cultuados como orientadores das ações permanentes da Força. A Lei da Anistia, por ser parâmetro de conciliação, produziu a indispensável concórdia de toda a sociedade, até porque os fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas. Colocá-la em questão importa em retrocesso à paz e à harmonia nacionais, já alcançadas. Reitero aos meus comandados que: Não há Exércitos distintos. Ao longo da história, temos sido o mesmo Exército de Caxias, referência em termos de ética e de moral, alinhado com os legítimos anseios da sociedade brasileira.Estamos voltados para o futuro e seguimos trabalhando incansavelmente pela construção de um Brasil mais justo, mais fraterno e mais próspero"
O que fica claro, na nota do Exército, é que o sentimento de tropa e a solidariedade corporativista, ainda que seja para acobertar crimes e criminosos, estão fortemente presentes nas nossas Forças Armadas. Embora a Marinha e a Aeronáutica não tenham se manifestado, podem crer que endossam totalmente a posição dos comandantes do Exército. E isso vai continuar sendo assim -- parece que está no DNA dos militares brasileiros. A referência de que "os fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica dos seus protagonistas" significa apenas isso, em linguagem mais clara: "na nossa versão, passado é passado; crimes foram cometidos dos dois lados; dentro da nossa visão, os militares que participaram da guerra suja não são criminosos e já foram também anistiados". É o ponto de vista deles, militares, nem poderia ser diferente.
O que parece ter incomodado os generais, além da fala de Nelson Jobim, foi o trecho, no discurso de Marco Antônio Rodrigues Barbosa, que eu nem havia registrado no post anterior, por considerá-lo desimportante, de que
"a tortura é crime imprescritível". Os militares entenderam essa referência como se o Governo Lula estivesse patrocinando desde já uma mudança na legislação para colocar os torturadores e assassinos de presos políticos no banco dos réus, como está acontecendo atualmente na Argentina e no Chile. E isso, para os militares brasileiros, é inaceitável e inegociável. Prevendo que poderia haver reação dentro dos quartéis e nas entidades que reunem militares da reserva, o General Enzo Peri resolveu se antecipar e colocar uma pá de cal neste assunto.
Acho que a reação imediata dos generais é mais um acerto de contas interno, para evitar reações mais exaltadas de outros setores ainda mais radicais. Aliás, penso que isso deve ter sido negociado com o próprio governo, na medida em que a nota teria sido apresentada antes a Nelson Jobim e ele sugeriu modificações (abrandamento), que foram aceitas, como relata a imprensa hoje.
Minha posição continua sendo a mesma. Ou seja: não existe clima, nem faz sentido, em revisar a Lei de Anistia para punir agentes da repressão que atuaram 20 ou 30 anos atrás. Isso é passado. A grande maioria dos comandantes e dos ideólogos da tortura como método de repressão, dentro do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, já morreu. Os torturadores que sobraram estão velhos e eram simples paus-mandados ou "bate-paus", como se diz na gíria policial.
O que nós todos queremos -- e o Brasil precisa disso para fazer as pazes com esse passado incômodo -- é, apenas, ter o direito à memória.
Vou reproduzir, na seqüência, em vermelho, o excelente texto, extremamente lúcido, que o Clóvis Rossi publicou hoje sobre o assunto na página 2 da Folha. Penso exatamente o mesmo que ele:
CLÓVIS ROSSI
Memória não é revanche SÃO PAULO - Para quem lidou tantas e tantas vezes com o tema da repressão durante o ciclo militar, chega a ser surpreendente a hipótese de que pudesse haver alguma reação das Forças Armadas ao livro "Direito à Memória e à Verdade", que acaba de ser lançado pelo governo federal.
O título, aliás, é daqueles que proíbem qualquer contestação: todo país tem o direito inalienável à memória, ainda que possa ser tenebrosa em alguns momentos (ou muitos momentos), e à verdade, por desagradável que possa ser.
Na verdade, o que deveria surpreender é a tardança do Estado brasileiro em dar um passo na direção da "memória e da verdade". O país é o último dos sul-americanos que foram submetidos à ditaduras militares a examinar com a devida lupa os abusos ocorridos.
Houve, sim, esforços particulares ou da sociedade civil. Sob comando da Arquidiocese de São Paulo, quando dom Paulo Evaristo Arns era o cardeal-arcebispo, publicou-se o "Nunca Mais", ampla compilação das violências praticadas.
Livros, saíram muitíssimos, inclusive de autoria de oficiais que participaram do mecanismo repressivo. Nunca é demais louvar o extraordinário trabalho do jornalista Elio Gaspari nos quatro volumes (até agora) sobre o período militar, em que o mecanismo repressivo foi bastante esmiuçado, não só do ponto de vista operacional mas também sobre a, digamos, formatação da repressão nos escalões superiores.
Mas esses livros, justamente por terem sido elaborados do lado de fora do aparelho de Estado, não puderam dar conta completa do quesito "memória". Não puderam, por exemplo, como é óbvio, devolver os corpos de "desaparecidos" às famílias. Seria absurdo confundir esse ato, profundamente humanitário, com revanchismo. A memória só é revanchista para quem tem consciência culpada".
3 comentários:
Certa vez, conversando com um militar da reserva, percebi que o ódio pelos "terroristas da esquerda" ainda é tão pulsante e real quanto naquela época. O que mais enfatizava em seu discurso era que o governo Lula teria relegado os militares ao mais abjeto esquecimento, colocando-os em último plano em suas metas e estratégicas políticas e demonstrando sua indiferença e desrespeito para com os milicos através de baixos salários e limitação de suas ações nas esferas governamental e social. Estariam sendo postos de lado, descartados e, com isso, o governo estaria inflamando um desafeto que há muito se auto-alimenta. Ainda segundo o reservista, os militares estariam firmemente dispostos a provocar um golpe e fazer tudo voltar a ser do jeito que era na ditadura. Achei meio exagerado da parte dele, mas ele GARANTIU que os militares já estariam até mesmo se organizando para esse ato, que seria mais do que revanchismo. Será que entendi direito ou isso é improvável? Gostaria da sua opinião e da dos colegas comentaristas.
Abraços!
Simone Maia
De pleno acordo, como seria partindo de gente minimamente sensata. O contrário - rever ou mudar a lei - só pode mesmo passar
pela cabeça de quem chamo de "maníaco-petista", mas poderia chamar, genericamente, "maníaco-esquerdista". Só para sublinhar,
tenho certeza que você entendeu, não foi o que sugeri no comentário ao post anterior: revisar a lei seria uma espécie de "golpe", muito embora legal e legítimo. Mas, dada a regra do jogo, a lei de 1979, alguém contestá-la judicialmente, obrigando as instituições e os poderes a se pronunciarem, aí sim, não haveria como espernear...
Outra coisa: mande o artigo prá Folha ou então "exija" que o Clóvis Rossi faça a devida referência, né?
À nossa SM: quem tem a nossa história (assim como a da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia...) nunca pode falar que está livre de quarteladas; mas parece muito improvável reunir, atualmente, as condições necessárias para levar adiante empresa desse tipo. Só se for algum "mániaco-direitista"...
Um abraço (a ambos),
RMau
À SIMONE E AO RM:
DESCULPEM-ME TER DEMORADO UM POUCO A RESPONDER AQUI NO "COMMENT". MAS HOJE É SÁBADO, É DIA DE TOMAR UMS GOLES A MAIS. NÓS TEMOS UMA TURMA, AQUI, UMA ESPÉCIE DE CONFRARIA ALCOGASTRONÔMICA (esta palavra existe?então foi inventada agora), CHAMADA "RODA DE FOGO", ONDE SE FALA MAL DE TUDO E DE TODOS. E EU ESTAVA LÁ ATÉ AGORA HÁ POUCO.
BOM, VAMOS AOS COMENTÁRIOS:
1) À SM: Este militar da reserva, pelo que você descreveu, deve ter participado da repressão ele próprio como bate-pau ou teve algum amigo muito próximo que deve ter sido torturador. Não tem outra explicação esse ódio patológico tanto tempo depois. Pode ser, também, frustração, por causa da Lei de Anistia e das indenizações, pensões e reparações generosas que foram aprovadas pelo Congresso na era FHC e ampliadas na Era Lula, que o Estado está sendo obrigado a pagar aos ex-"terroristas". Considerando que eles, militares, são realmente mal remunerados, isso os deixa revoltados.
Mas não existe clima no Brasil para uma nova aventura golpista. Esse milico frustrado está blefando. Os militares entregaram o poder, na transição entre 83 e 85, conduzida pelo Tancredo Neves e outros com muita competência e habilidade,porque estavam desmoralizados diante da nação e tiveram a consciência de que o ciclo havia chegado ao fim. Não acredito, pois, em aventura golpista ou quartelada. O Brasil se sofisticou muito, na economia e em termos de desenvolvimento. Hoje os próprios empresários e os setores formadores de opinião pública não aceitariam uma quebra das regras constitucionais.
Deste perigo, a sua geração está livre, graças a pessoas que lutaram contra a ditadura e forçaram a abertura do regime. A globalização e a interdependência das economias são outros fatores que funcionam como barreiras contra eventuais candidatos a ditadores.
Esta é a minha opinião.
2) AO RM: Eu captei totalmente o seu pensamento, sei o que está sugerindo, mas entendo que mesmo judicialmente não é hora de questionar os métodos aplicados pela repressão. A Lei de Anistia tem que ser entendida como está sendo até agora: pacificadora.
Quanto às indenizações e reparações, o Estado brasileiro está sendo muito mais generoso do que os demais países que também fizeram concessões. Tem havido até um certo exagero, como a promoção do Lamarca (que, na visão dos militares, foi um traidor) a general com remuneração equivalente ao cargo e retroativa à época da sua morte. Acho que em nenhum outro país do mundo isso seria concedido.
Idem quanto a outros casos, como o do próprio Lula, que passou 30 dias na prisão, se muito, por liderar uma greve, e hoje recebe uma pensão de 4.800 reais/mês como "anistiado".
Mas no Brasil é assim: nós somos mais tolerantes e generosos que outros povos.
Abração para vocês e obrigado por transformarem este meu blog num gostoso espaço de discussões de alto nível
MR
01/09 - 23:30
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